Sexo e Aparência
Abro hoje a versão online da Folha de S. Paulo, e me deparo com um texto muito bom do Contardo Calligaris, entitulado “Sexo ‘artístico’” (íntegra do artigo para assinantes da UOL e da Folha).
No texto, Contardo questiona um artifício sempre utilizado em filmes que não querem “chocar” o espectador com cenas de sexo: o uso de enquadramentos apenas parciais – um pedaço da bunda, um movimento de costas, um seio -, com uma trilha sonora previsível, criando o tal “sexo artístico” do título.
Ele resume seu pensamento:
“Em suma, no estereótipo cinematográfico, o sexo parece mais estético, saudável e pretensamente poético do que extático. Ora, o sexo não é nada disso, e torná-lo “artístico” não é apenas um jeito de representá-lo, é também um jeito de domesticá-lo, de regrá-lo.”
Fiquei tentando lembrar das últimas cenas de sexo que vi em filmes, e, de fato, quase todas se enquadram nessa descrição. Uma música romântica de fundo, e cenas que tanto poderiam ser de sexo, quanto de uma aula de alongamento na academia. Tudo super delicado, normalmente apenas um “papai-e-mamãe” básico, sem contorções faciais, sem gritos, sem arranhões, sem mordidas.
No fundo, acaba sendo censura, da mesma forma. Pode-se mostrar o sexo, desde que ele esteja higienizado. Pode-se mostrar o sexo, desde que os corpos sejam bonitos, desde que aconteça apenas por amor, desde que as pessoas se contenham nas suas manifestações de prazer, desde que o orgasmo seja apenas um suspiro.
Contardo ainda questiona:
“Então por que seríamos reféns da “feiúra” da concupiscência, quando é possível (como sugerem as cenas artístico-eróticas do cinema) viver orgasmos lindos e simultâneos, quem sabe ritmados pelo coro da “Nona Sinfonia” de Beethoven?”
Cria-se, assim, uma idéia de sexo completamente afastada da realidade. Aliás, se formos pensar, da mesma forma que acontece com os filmes pornô – embora estes estejam no extremo oposto. Nos filmes pornográficos, preliminares são dispensáveis, sexo anal é corriqueiro e simples, ereções não se perdem, lubrificação não é um problema, e as roupas são arrancadas sem que nada se perceba (aliás, isso também acontece nos filmes românticos – só na vida real a gente descobre como é tirar uma calça jeans ou desamarrar um sapato na hora do tesão).
E vejam como a coisa fica: mulheres crescem vendo filmes românticos e desejando orgamos simultâneos com música clássica. Homens crescem vendo filmes pornográficos, e pensando em fisting e sexo a três. Um belo dia, eles se encontram, e precisam descobrir que o que efetivamente vai acontecer não é nada disso. Não é higiênico, não é automático, não é pura poesia, não é pura baixaria.
P.S.: Algumas cenas de sexo em filmes me chamam a atenção exatamente por fugirem um pouco dessa dicotomia poesia x putaria:
1) A primeira é em Instinto Selvagem – e não, não envolve a Sharon Stone, mas Michael Douglas e Jeanne Triplehorn, quando chegam no apartamento dela. É uma cena crua, e absurdamente sexy. Eles entram no apartamento, ele a beija loucamente, a apóia na parede, levanta o vestido, enfia a mão por baixo, e fode por trás.
2) A outra cena que eu adoro é em Infidelidade, a famosa cena de sexo na escada. Aliás, quase todas as cenas de sexo desse filme são boas, mas essa em especial é excitante demais.
3) Por fim, Antonio Banderas em Ata-me! Não só é uma cena bem direta, como envolve toda uma fantasia de bondage que é sensacional. Adoro.


Agosto 15, 2008 às 1:14 am
O negócio é ver os filmes certos.
Mas realmente, passar batido pela oportunidade de filmar uma cena de sexo é besteira. Muitos cineastas capricham nas cenas do filme, mas passam rápido pelo sexo.
Veja o caso do Tarantino, que não tem estas frescuras. Assista Jack Brown, tem uma ótima cena lá.
http://www.cineasta81.wordpress.com
Agosto 15, 2008 às 11:11 am
[...] do post Sexo e Aparência do blog Palavras [...]
Agosto 15, 2008 às 2:12 pm
Oi! Cheguei aqui pelo blog “a vida secreta”, adorei o texto. Discussão simples mas super pertinente, ainda nos dias de hoje! O blog tá ótimo. Beijos!
Agosto 15, 2008 às 5:20 pm
Antigamente era bem pior, não é. Lembra do furor que “O Último Tango e Paris” causou? Tudo por causa da cena da “manteiga”. Acho esses recursos uma forma de tratar quem vê como uma criança. Se não querem mostrar, nem insinuem!
Abraços.
Enfil
Agosto 15, 2008 às 7:54 pm
A grande maioria dos filmes é isso mesmo só um papai-mamãe bem básico com uma música de fundo, o pior q as vezes se cria uma expectativa quanto a cena de sexo do filme e na hora q passa há uma frustação c o q se vê,espera-se muito e não vê nada, dá para fazer uma cena bem sexy e sensual sem ser pornográfica com toda certeza,
Bjus.
Agosto 17, 2008 às 3:49 am
e as cenas de sexo de jolie e banderas em pecado original…
ótimo post…
Agosto 19, 2008 às 8:53 pm
Ilana tem dois selinhos p vc lá no blog,passa lá,
Bjus.
Agosto 20, 2008 às 9:05 am
Oi
Tem desafio pra você lá no meu blog. Parte da tal meme dos pelados.
Cheguei por indicaçnao de uns leitores que andam por lá e por aqui também.
Bjo,
L.
Agosto 20, 2008 às 10:29 am
Que Post gostoso.
Um filme que acho máximo para quebrar esses padrões é a Secretária, bem genero europeu embora não seja, SDMS em questão, nada a ver com a categoria de drama como foi classificado, a cena máxima é qdo ele a leva para quarto, um banho divino e “sara suas feridas ” de dar agua na boca.
Infidelidade e Ata-me tambem são demais.
Agosto 20, 2008 às 12:21 pm
oi Ilana,
passo rapidinho (vou voltar p comentar, gostei do assunto) para avisar que tem um convite p vc lá no meu blog.
beijo
Agosto 21, 2008 às 9:59 am
[...] do post Sexo e Aparência do blog Palavras [...]
Agosto 28, 2008 às 12:01 pm
[...] Tks por me lembrar isso alguns dias atrás Ilana [...]
Agosto 31, 2008 às 6:24 pm
Já repararam que nas cenas de sexo no cinema nunca rola um sorriso? É tudo levado muito a sério. Todo mundo com cara de tarado; ninguém sorri, pois isso seria “brochante” para o espectador. E por falar em brochar, nos filmes ninguém brocha, ninguém faz nada que machuque o outro, provoque cócegas ou coisa do gênero. Em síntese: é tudo tão perfeito e tão distante da realidade.
Péssimo pra garotada que assiste e idealiza uma relação sexual tão distante da vida real.
Setembro 10, 2008 às 1:45 pm
Concordamos como Henrique… eh tudo sempre muito perfeito. Se acontece algo diferente provavelmente vai parar nos erros de gravação pros atores rirem depois, pois nem isso temos acesso. rs
Outubro 12, 2008 às 10:00 pm
Nada pior que sexo enfeitado…
Hunf…
Outubro 29, 2008 às 9:32 am
Sexo deve ser selvagem, sem firulas, alguns filmes sem duvidas mostram a alguns como deve ser feito.
Abril 28, 2009 às 7:44 pm
“Não é higiênico, não é automático, não é pura poesia, não é pura baixaria.”
Esta frase do texto é ótima. Eu não poderia resumir melhor as ilusões que andam por aí (e em nossas cabeças também).